MANUTENINDO O CANHÃO.

Fala canhão! Para os artilheiros do Exército Brasileiro de hoje, é impossível esquecer o passado glorioso, conduzido pela mente inteligente do então Coronel Emílio Luiz Mallet, que à frente do 1º Regimento de Artilharia a Cavalo, no ano de 1866, ordenava em Tuiuti: “Aqui estamos mal, mas não há lugar melhor. Devemos prever um golpe de Cavalaria e prepararmo-nos para apartá-lo. Ordeno, pois, que o Regimento se mantenha de prontidão, ficando durante o dia, de meias-guarnições a postos, serviço que deverá ser presidido por um dos senhores capitães, auxiliado de subalternos das diversas baterias. À noite, a prontidão será feita por todos nós. Mas não é o bastante. Recomendo que, a partir de hoje, se abra em toda a nossa frente, largo e profundo fosso, o que se fará em silêncio e sem estrépito. As terras que resultarem da escavação devem ser espalhadas de modo a não formarem parapeito, que dê a perceber ao inimigo que estamos fortificados… e eles que venham.” As palavras ecoam e o coração artilheiro bate mais forte, corajoso, pulsante, audaz, desejoso… Foi e tem sido assim através dos tempos. Em 10 de junho de 1801, nasceu EMÍLIO LUIZ MALLET, na cidade de Dunquerque, França. Tinha 17 anos quando sua família veio para o Brasil, iniciando-se na carreira das armas, formandos e em 1823 e sendo promovido ao posto de 2º tenente. Participou de vários conflitos, até que, por força da abdicação de D. Pedro I, não sendo brasileiro nato, teve que deixar as fileiras do Exército. Por seus méritos e feitos, porém, foi readmitido no posto de capitão 20 anos mais tarde, prestando novamente seus serviços à Pátria contra as forças de Oribe e Rosas. A figura de Mallet no campo de batalha era única. De estatura e alma grandiosas, o vigor da presença do comandante conduziu com confiança e respeito os subordinados pelos caminhos tortuosos da guerra e do tempo. Os “bois de botas”, assim conhecidos por terem suas patas sujas de lama tais quais um calçado, ao tracionar as peças, avançaram em direção a vitória na História do País. Em 24 de maio de 1866, na Batalha de Tuiuti ou Batalha dos Patronos, houve o episódio mais marcante da Guerra da Tríplice Aliança, na qual deixou-se a marca da ousadia e do arrojo de brasileiros gravados a sangue no terreno. As 24 peças do 1º Regimento de Artilharia a Cavalo, acrescidas de bocas-de-fogo a La Hitte, fiéis às ordens do Comandante Mallet, permaneceram inertes, em guarda, solenes, à espera do angustiante comando de “fogo”, mesmo quando à noite, a temida carga inimiga paraguaia avançava como um raio em sua direção. Quinhentos, duzentos, cem, cinqüenta metros… “Os primeiros são para o buraco. Precisamos honrar o fosso que nos deu muito trabalho, amigos. Por aqui eles não entram!” Assim que a primeira carga inimiga foi surpreendida pelo fosso, desequilibrando o embate a favor da tropa brasileira, intensa e poderosa resposta bradou das bocas de fogo. Tão velozes e valorosos eram os tiros das Baterias de Mallet que ficou conhecida à partir daí como a temida “Artilharia a Revólver”. As pesadas baixas infligidas aos inimigos de outrora em Tuiuti significaram uma guinada em direção ao fim dos conflitos. Por seus feitos em campanha, Mallet foi agraciado em dezembro de 1878, pelo governo imperial, com o título de Barão do Itapevy. A guerra acabou e o agora Mallet seguiu pela estrada da vida, até encontrar o descanso final. A personalidade ímpar do Barão de Itapevy associa a Artilharia aos feitos de um Brasil glorioso, nobre, maior. Pelo qual vale a pena lutar, pelo qual vale a pena morrer. Como justa e póstuma homenagem de uma nação agradecida, foi escolhido para patrono da arma. No “Boi de Botas”, como hoje é conhecido o 3º Grupo de Artilharia de Campanha AutoPropulsado – o Regimento Mallet, tradicional Unidade do Exército Brasileiro, o Marechal finalmente repousa, silente, atento, ao lado de sua esposa, D. Maria Castorina. À espera de um novo chamado. Os anos passam e as diferenças entre os povos adormecem até que a Segunda Guerra Mundial mais uma vez chama à pátria seus filhos artilheiros para, nos Pirineus, prestarem seus serviços e atestar sua coragem e determinação. O primeiro tiro da Força Expedicionária Brasileira, dado pelo 21º Grupo de Artilharia de Campanha, fez ouvir nos vales da Europa o troar do herói brasileiro. Os quatro Grupos da Artilharia Divisionária, sob as ordens do General Osvaldo Cordeiro de Farias, responderam à altura àqueles que ousaram afrontar a Nação e seus filhos. Montese, Camaiore, Monte Prano, Fornovo, Barga, Monte Castelo, CastelNuovo… O tempo passa e os materiais e a técnica evoluem. Arremessos de paus e pedras deram lugar à pólvora e aos artefatos. Os cavalos e bois sujos de lama deram lugar ao motor sobre rodas e lagartas. O metal cedeu à tecnologia, tornando-se mais leve, resistente e eficaz. A imprecisão empírica de outrora transformou-se em balística de precisão cirúrgica. Mas o coração do artilheiro, escoltado por Santa Bárbara, a protetora dos raios e trovões, mantém através dos tempos a mesma emoção, o mesmo ardor, a mesma razão, a mesma coragem e nobreza. Trata-se do mesmo ideal de outrora, que transcende os tempos e é capaz de dispor até mesmo da própria vida, morrendo abraçado ao canhão, por algo maior do que si mesmo… Nossa vida é guardar sua vida! Sentinelas da pátria querida, ao escutar o troar do canhão, o sentimento que une do arremesso ao míssil, do Marechal Mallet ao mais humilde soldado contemporâneo, é um só, que continuará sendo transmitido através dos tempos, de geração a geração: “Por aqui não entram”.

Centro de Comunicação Social do Exército Brasília-DF, 3ª feira, 10 de junho de 2008

wp-1480524372059.jpg
Foto: Osvaldo Costa 30/11/2016 14:46

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s